quinta-feira, 14 de junho de 2012

Dislipidemia

Denomina-se dislipidemia por o aumento de lipídios (gordura) no sangue, principalmente do colesterol (hipercolesterolemia) e dos triglicerídeos (hipertrigliceridemia). Esta anormalidade, na maioria das vezes, é causada devido a hábitos alimentares incorretos (consumo de alimentos ricos em gorduras saturadas e trans), e ao estilo de vida sedentário. No entanto, a dislipidemia também pode ocorrer devido a fatores genéticos, ao uso de certos medicamentos e também pode ser secundária a outras doenças, como por exemplo obesidadediabeteshipotireoidismo, doenças das vias biliares e insuficiência renal.
Nos idosos, a dislipidemia é mais comum em mulheres do que em homens, sendo mais frequente na faixa etária dos 65-74 anos. Em idades superiores a 75 anos, a frequência de dislipidemias declina gradativamente.

COLESTEROL

O colesterol é uma substância semelhante à gordura com função importante em muitos processos bioquímicos do organismo. Ele encontra-se distribuído por todo o corpo humano e é um importante constituinte das membranas das células e das lipoproteínas que são as proteínas que transportam o colesterol no sangue. É também precursor dos ácidos biliares, de alguns hormônios e da vitamina D. Sem uma quantidade adequada de colesterol no sangue a vida não seria possível, no entanto, seu excesso no sangue é um dos principais fatores de risco da aterosclerose.
A grande maioria do colesterol que temos circulando no sangue é fabricado pelo fígado. Apenas 30% é proveniente da dieta, principalmente dos alimentos de origem animal (carnes vermelhas gordas, ovos, manteiga, queijos amarelos, etc.). As gorduras da dieta, sobretudo as gorduras saturadas, influenciam os níveis de colesterol, pois os ácidos graxos saturados e as gorduras trans elevam os níveis de colesterol ruim (LDL) no sangue. As gorduras trans, além de aumentar o colesterol ruim, podem também diminuir o colesterol bom.
O colesterol é insolúvel em água e, consequentemente, insolúvel no sangue. Para ser transportado através da corrente sanguínea ele liga-se a diversos tipos de lipoproteínas, partículas esféricas que tem sua superfície exterior composta principalmente por proteínas hidrossolúveis.
Existem vários tipos de lipoproteínas, e elas são classificadas de acordo com a sua densidade. As principais são:
  • LDL – colesterol (lipoproteína de baixa densidade): também conhecida como “colesterol ruim”, transporta o colesterol do fígado para o sangue e para os tecidos.  
  • VLDL – colesterol (lipoproteína de muito baixa densidade): também, conhecido como colesterol ruim, transporta triglicérides e colesterol do fígado para os tecidos.
  • HDL - colesterol (lipoproteína de alta densidade): também conhecida como “colesterol bom”, transporta o colesterol dos tecidos do corpo humano de volta ao fígado, onde será eliminado - o chamado transporte reverso do colesterol. Isso diminui a quantidade de colesterol no sangue ou aquele presente em células, diminuindo assim os riscos de aterosclerose.


Enquanto o LDL e o VLDL levam colesterol para as células e facilitam a deposição de gordura nos vasos, o HDL faz o inverso, promove a retirada do excesso de colesterol, inclusive das placas arteriais. Por isso, denominamos o HDL como colesterol bom e o VLDL e o LDL como colesterol ruim. O LDL - colesterol é o grande vilão da história. Altos índices de LDL estão associados a altos índices de aterosclerose.

TRIGLICERÍDEOS

Os triglicérides são um tipo de gordura que o organismo utiliza para armazenar energia. As calorias ingeridas em uma refeição quando não são utilizadas imediatamente pelos tecidos, são convertidas em triglicérides e transportadas para as células adiposas para serem armazenadas. Assim, toda vez que o corpo humano precisa de energia, os hormônios liberam os triglicérides do tecido adiposo  para que eles possam satisfazer as necessidades do corpo.  Triglicérides elevados combinados com HDL baixo ou LDL alto favorece a aterosclerose, estando assim, altamente relacionado com doenças cardiovasculares (infarto), cerebrovasculares (AVE).
É importante ressaltar que existem dois tipos de LDL. Uma LDL é pequena e altamente aterogênica (contribui para a formação da placa de gordura) e a outra é grande e menos aterogênica. A LDL pequena penetra mais facilmente na parede da artéria e também se oxida mais facilmente, o que contribui para a formação da placa de ateroma. O tamanho das partículas de LDL se relaciona com alterações na concentração de triglicerídeos. Quanto mais alto os níveis de triglicerídeos, maior será o predomínio das partículas pequenas de LDL.

ATEROSCLEROSE
           
Quando nosso corpo tem mais colesterol do que precisa, as moléculas de LDL ficam circulando no sangue à procura de algum tecido que esteja precisando de colesterol para o seu funcionamento. Se este colesterol não for entregue a nenhum tecido, a molécula de LDL acaba se depositando nos vasos, acumulando gordura nos mesmos.
Veja na ilustração abaixo como essas placas de gordura ocupam espaço e diminuem o diâmetro da luz dos vasos. A aterosclerose também causa lesão direta na parede, diminuindo a elasticidade das artérias, tornando-as mais duras.
Placas de colesterol nos vasos
O depósito de gordura e a lesão da parede dos vasos favorecem a obstrução do fluxo de sangue e a redução do aporte de oxigênio e nutrientes aos tecidos. Quando os vasos acometidos pelas placas de colesterol são as artérias coronárias (artérias do coração), o resultado final pode ser o infarto cardíaco.
Estudos mostram que existe uma relação positiva entre colesterol total e doença coronariana dos 40 aos 70 anos de idade, embora atenuada com o aumento da idade. Essa relação torna-se negativa após os 80 anos de idade. Outros estudos também não mostraram existência de associação entre hipercolesterolemia e mortalidade geral ou coronariana em indivíduos com idade superior a 70 anos.

ETIOLOGIA

De acordo com sua etiologia, as dislipidemias podem ser de origem primaria ou secundária:
- Dislipidemia primaria: é de origem genética e podem se manifestar como hiperlipidemia (exemplo: hipercolesterolemia e hipertrigliceridemia comum e familiar) ou como hipolipidemia (exemplo: diminuição HDL)
- Dislipidemia secundária: pode ser proveniente de outros quadros patológicos e fatores de risco, como por exemplo:
·         Hipotireoidismo: eleva níveis de LDL pela diminuição do número de receptores hepáticos para LDL
·         Insuficiência renal crônica: aumento dos triglicerídeos
·         Síndrome nefrótica: aumento do colesterol e dos triglicerídeos
·         Obesidade: aumento dos triglicerideos e redução de HDL
·         Fumo: reduz HDL e oxida as LDL
·         Alcoolismo: aumento dos triglicerídeos
·         Diabete mélito: aumenta triglicerideos e diminui HDL
·         Hepatopatia: aumento do colesterol total

Medicamentos: 


·         Tiazídicos: aumentam triglicerídeos
·         Beta-bloqueadores: aumentam os triglicerídeos e reduzem HDL
·         Amiodarona: eleva colesterol total,
·         Corticóides: aumentam triglicerídeos,
·         Estrógenos: aumentam triglicerídeos,
·         Ciclosporina: aumenta LDL e triglicerídeos.
Os fatores de risco para o desenvolvimento das dislipidemias são: hipertensão; aumento de LDL; baixo HDL; sedentarismo; sobrepeso e obesidade; diabetes mellitus; idade – homens ≥ 45 anos ou mulheres ≥ 55 anos; hereditariedade – história familiar de irmão e/ou pai com doença coronariana < 55 anos, ou mãe e/ou irmã < 65 anos.


DIAGNÓSTICO

Como a dislipidemia é assintomática, ou seja, não apresenta sintomas, é muito importante realizar exames para medir as dosagens de colesterol e triglicérides periodicamente, para detectar a presença ou não de dislipidemia.  O diagnóstico de dislipidemia é feito através da dosagem do colesterol total e suas frações. Todo indivíduo com 20 anos ou mais deve ter seu colesterol medido, pelo menos uma vez a cada 5 anos. Se você tiver história familiar de colesterol alto ou outro fator de risco, pode ser necessário dosá-lo antes e com uma frequência maior. O melhor é realizar o perfil geral do colesterol com medida de colesterol total, LDL, HDL e triglicérides. Este teste deve ser colhido com jejum de 12h.

Níveis de colesterol total no sangue e sua relação com a doença cardíaca:
Nível em mg/dL
Nível em mmol/L
Risco de doença cardíaca
<200
<5,2
Nível desejável: menor risco de doença cardíaca
200-239
5,2-6,2
Limiar de alto risco
>240
>6,2
Nível não-desejável: alto risco

Durante muito tempo os médicos avaliaram o grau de dislipidemia através dos valores do colesterol total, que nada mais é do que a soma dos níveis sanguíneos de HDL + LDL + VLDL. Porém, como acabamos de explicar, há o colesterol ruim e o colesterol bom, o que torna pouca eficiente a avaliação conjunta deles. Atualmente o colesterol total é menos valorizado do que os níveis individuais de HDL e LDL.


Veja esses exemplos:

Paciente 1 - LDL 150, HDL 20 e VLDL 20 = colesterol total de 190

Paciente 2 - LDL 100, HDL 65 e VLDL 25 = colesterol total de 190


Pelo que foi explicado até agora, não há dúvidas que o paciente 1 apresenta mais riscos de aterosclerose que o paciente 2, apesar de terem o mesmo nível de colesterol total. O exemplo acima explica o porquê do colesterol total não ser o melhor parâmetro para avaliar a dislipidemia.

Valores de colesterol HDL e colesterol LDL

Atualmente classificamos o colesterol da seguinte maneira: 


LDL 

Menor que 100 mg/dL – Ótimo

Entre 101 e 130 mg/dL – Normal
Entre 131 e 160 mg/dL - Normal/alto
Entre 161 e 190 mg/dL – Alto
Maior que 190 mg/dL - Muito alto


HDL

Menor que 40 mg/dL - Baixo (ruim)

Entre 41 e 60 mg/dL – Normal
Maior que 60 mg/dL - Alto (ótimo)

Triglicérides (VLDL)

Os triglicerídeos estão intimamente ligados ao VLDL e seu valor costuma ser 5x maior. Por exemplo, um indivíduo com VLDL de 30 mg/dL, terá níveis de triglicerídeos ao redor de 150 mg/dL.


Os valores normais de triglicerídeos são:

menos que 150 mg/dL = normal

Entre 150 e 199 mg/dL = limítrofe
Entre 200 e 500 mg/dL = elevado
Maior que 500 mg/dL= muito elevado

Classificação laboratorial:
A classificação laboratorial compreende quatro tipos:
- Hipercolesterolemia isolada - aumento isolado do colesterol total ou do LDL colesterol.
- Hipertrigliceridemia isolada - aumento das triglicérides.
- Hiperlipidemia mista - aumento do colesterol total e das triglicérides.
- Diminuição isolada do HDL - colesterol ou associada a aumento das triglicérides ou do LDL - colesterol.


TRATAMENTO

Mudanças no estilo de vida, incluindo a prática regular de exercícios físicos e uma dieta adequada, são importantes medidas para o controle dos níveis de colesterol. Em muitos casos, com medidas simples é possível reduzir ou até mesmo evitar o uso de medicamentos contra o colesterol. 
Qualquer grau de redução no colesterol é bem-vindo, já que a cada 1% de redução dos níveis de LDL no sangue diminui-se em 2% o risco de doenças cardiovasculares.

Dieta alimentar: Deve-se evitar gorduras saturadas, principalmente as poli saturadas do tipo trans. As gorduras mais saudáveis são as gorduras insaturadas, principalmente as monoinsaturadas, encontradas em alimentos como o azeite, canola, abacate, amendoim e nozes.
·         Carnes: Não é preciso cortar carnes da dieta, mas dê preferência a peixes. Deve-se evitar: Carnes com cortes gordos, entrecosto, carne de órgãos e carnes fritas (inclusive peixes), linguiça, salsicha, mortadela, salame, presunto e bacon. 
·         Ovos: Pode-se comer ovos, porém, não mais do que 4 gemas por semana nos casos mais leves e não mais do que 2 gemas por semana nos casos de colesterol mais elevado ou alto risco cardiovascular.
·         Leite e derivados: O leite deve ser sempre desnatado. O mesmo vale para queijos e iogurtes.
·         Margarina: Não se deve usar manteiga, mas sim margarina.
·         Óleo de peixe (Omega 3): O omega 3 é um tipo de gordura encontrada em peixes gordos, principalmente salmão, nas sementes de linhaça, óleo de linhaça, óleo de canola, óleo de soja e nozes. O seu consumo regular reduz a incidência de eventos cardiovasculares e ajuda a reduzir os níveis de triglicerídeos. Sugere-se o consumo de no mínimo duas refeições por semana com peixes ricos em omega 3.
·         Frutas e vegetais: Ajudam a reduzir o colesterol LDL e devem ser a base da alimentação.
·         Óleos vegetais: Os óleos vegetais, como azeite, soja, girassol, canola, milho, algodão e arroz não possuem gordura saturada e são ótimas fontes de gordura saudável (gorduras insaturadas). ruim).

Ø  Pessoas com triglicérides elevados também devem reduzir a ingestão de carboidratos.



Hábitos de vida saudáveis:

·         Praticar exercícios físicos: pelo menos 30 minutos por dia 5 vezes na semana.
·         Não fumar.
·         Ingerir bebida alcoólica com moderação.

Em caso de falha desta terapêutica, o médico pode também prescrever medicamentos. O tipo e a dose deste medicamento vão depender de seus níveis de colesterol e triglicérides, se você já tem doença cardíaca, diabetes ou outros fatores de risco para doença cardiovascular.

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