quinta-feira, 14 de junho de 2012

Acidente Vascular Encefálico - AVE


O cérebro é uma estrutura vascularizada, irrigada por inúmeras artérias que se ramificam no interior do tecido cerebral, levando, através do sangue, oxigênio e os nutrientes necessários ao seu funcionamento. O acidente vascular encefálico (AVE) é o surgimento agudo de uma disfunção neurológica causada por uma anormalidade na circulação sanguínea cerebral, tendo como resultado o comprometimento de áreas focais do cérebro (O’Sullivan & Schmitz, 2004).

O AVE é a segunda maior causa de mortes em todo o mundo, representando cerca de 5,7 milhões por ano. No Brasil, em torno de 40% das mortes são causadas por doenças cerebrovasculares, sendo que os AVEs predominam em relação à doença coronariana, atingindo em torno de 100 mil vítimas por ano (Cabral, 2008).

O AVE é considerado a doença neurológica mais comum na prática clínica e a principal e mais importante causa de incapacidade neurológica do tipo paralisia total ou parcial, distúrbios visuais, sensoriais, intelectuais e motores. Dependendo do grau de acometimento, o AVE pode ser altamente incapacitante, impedindo o paciente de realizar suas atividades da vida diária e de retornar ao trabalho e ao convívio social.

Nos últimos anos devido ao aumento da expectativa de vida e às mudanças no estilo de vida das pessoas, tem havido um aumento na incidência do AVE (Araújo, et al., 2008). Segundo Cabral (2008), estimativas revelam que se não houver nenhuma intervenção, o número de óbitos por essa doença, projetado para o mundo aumentará para 6,5 milhões em 2015 e para 7,8 milhões em 2030.

O AVE pode ser causado por uma hemorragia no interior do cérebro, devido à ruptura de um vaso sanguíneo que tem como conseqüência o extravasamento de sangue para o tecido cerebral, causando destruição local. Em outros casos, ele é causado por um bloqueio do fluxo sanguíneo (isquemia) devido ao espessamento da parede interna de uma artéria que irriga o cérebro ou por um coágulo sanguíneo que se formou no interior do coração ou de uma artéria e deslocou-se do seu ponto de origem ate o cérebro (Zinni, 2004).
            
Os fatores de risco para o AVE podem ser não modificáveis ou modificáveis. Os não modificáveis incluem gênero, idade, raça e histórico familiar positivo para doença arterial coronariana. Enquanto os modificáveis incluem hipertensão, dislipidemia, diabetes mellitus, tabagismo, sedentarismo, obesidade e estresse, sendo que a hipertensão é o principal desses fatores, estando presente em 70% dos casos. Quanto maior o número de fatores de risco presentes ou quanto mais elevado o grau de anormalidade de qualquer um desses fatores, maior será o risco da ocorrência de um AVE. Além disso, a incidência do AVE aumenta com o passar dos anos, dobrando a cada década de vida (Araujo, et al., 2008).

Clinicamente há inúmeros comprometimentos possíveis sendo que sua gravidade é determinada principalmente pelo local e extensão da lesão, a quantidade de fluxo sanguíneo colateral e o tratamento inicial da fase aguda. Entre os principais comprometimentos causados pelo AVE estão: déficits somatossensitivos, visuais, distúrbios de fala e linguagem, disfagia, disfunções perceptiva e cognitiva, distúrbios afetivos, disfunções da bexiga e do intestino e déficits motores. Os déficits motores incluem alterações no tônus, padrões sinergísticos anormais, reflexos anormais, paresia e padrões alterados de ativação muscular, déficits de programação motora e distúrbios de controle postural e equilíbrio.

Os pacientes acometidos por AVE geralmente apresentam uma recuperação rápida nos três primeiros meses após o surgimento da doença, exibindo uma melhora neurológica e funcional significativa. Após esse período, eles continuam a obter ganhos funcionais, porém de forma mais lenta, por até seis meses ou mais após a lesão.  O índice de melhora varia de acordo com a gravidade da lesão, de modo que os pacientes que sofrem um AVE menor costumam se recuperar rapidamente apresentando poucos ou nenhum déficit residual, enquanto os pacientes que sofrem um AVE mais grave tem uma recuperação mais limitada.

Acredita-se que a recuperação inicial pode resultar da resolução de fatores metabólicos e vasculares locais, ou seja, a redução do edema, a absorção do tecido danificado e a melhora da circulação local possibilitam que os neurônios intactos, que estavam anteriormente inibidos, readquiram sua função. Além disso, considera-se que a plasticidade do sistema nervoso central (SNC) seja responsável pela recuperação continuada (O’Sullivan & Schmitz, 2004).

Através da neuroplasticidade, o cérebro é capaz de se reorganizar funcionalmente, contribuindo para a recuperação do AVE. As mudanças na organização do córtex cerebral incluem o aumento do número de dendritos, de sinapses e de fatores neurotróficos importantes para a sobrevivência das células cerebrais.  De acordo com Cardozo (2009), após a ocorrência de uma lesão em uma região do córtex motor, pode-se observar mudanças de ativação em outras regiões motoras, sendo que essas mudanças podem ocorrer em regiões homólogas do hemisfério não afetado que assumem as funções perdidas ou no córtex intacto adjacente à lesão.  Graças a essa reorganização funcional do SNC, os pacientes acometidos por AVE podem recuperar, pelo menos em parte, as habilidades perdidas. A estimulação proveniente da reabilitação e de um ambiente favorável desempenha um papel importante no processo de regeneração e recuperação do cérebro.

Segundo O’Sullivan & Schmitz (2004), quando iniciado de forma precoce, o tratamento fisioterapêutico otimiza o potencial do paciente para a recuperação. Como foi dito anteriormente, a recuperação e a aprendizagem após o AVE se baseiam na capacidade do cérebro de se reorganizar e se adaptar. Assim, um plano de tratamento eficiente aproveita ao máximo esse potencial e promove a reorganização funcional através da estimulação e incentivo do uso funcional do lado corporal afetado.  A mobilização precoce também minimiza os efeitos prejudiciais da imobilização e do descondicionamento e evita o desuso aprendido dos membros hemiplégicos e a má adaptação dos padrões de movimento. É importante que o plano de tratamento seja organizado e estruturado de modo a atender aos objetivos e necessidade individuais de cada paciente, selecionando as atividades que são mais significativas para ele e enfatizando sempre a retomada das atividades de vida diária (AVDs) normais.

De modo geral, a intervenção fisioterapêutica visa: manter a integridade e mobilidade articular, minimizar os efeitos da anormalidade do tônus muscular, aumentar a tolerância a posições e atividades, diminuir o risco de comprometimentos secundários, melhorar a consciência em relação ao lado hemiplégico, melhorar o controle de tronco e equilíbrio, melhorar a função motora, proporcionar independência nas AVDs e na mobilidade funcional, aumentar a força e resistência muscular e a capacidade aeróbica. Através do tratamento fisioterapêutico também é possível diminuir a deterioração mental e a depressão, promovendo assim uma perspectiva positiva e um melhor prognóstico para o processo de reabilitação.


Referências bibliogáficas

AMARAL, João J. F. Como fazer uma pesquisa bibliográfica. Publicado em 2007. Disponível em: <http://www1.eeg.uminho.pt/economia/caac/pagina%20pessoal/Disciplinas/disciplinas%202009/ecp/ECP%202009/TRABALHOS/bibliografia.pdf>

ARAÚJO, A. P. S., SILVA, P. C. F., MOREIRA, R. C. P. S., BONILHA, S. F. Prevalência dos fatores de risco em pacientes com acidente vascular encefálico atendidos no setor de neurologia da clínica de fisioterapia da UNIPAR, campus sede. Arq. Ciênc. Saúde Unipar, Umuarama, v. 12, n. 1, p. 35-42, jan./abr. 2008.

CABRAL, Norberto Luiz. Epidemiologia e impacto da doença cerebrovascular no Brasil e no mundo.  Publicado em ago. 2008. Disponível em: <http://www.comciencia.br/comciencia/?section=8&edicao=47&id=563


GIL, Antonio Carlos. Como elaborar projetos de pesquisa. 4 ed. São Paulo: Atlas, 2008.

O’SULLIVAN, Susan B.; SCHMITZ, Thomas J. Fisioterapia: avaliação e tratamento. 4 ed. São Paulo: editora Manole, 2004. Cap. 17. P 519-564.

RODRIGUES, William Costa. Metodologia Científica. FAETEC/IST. Paracambi. Publicado em 2007. Disponível em: <http://professor.ucg.br/SiteDocente/admin/arquivosUpload/3922/material/Willian%20Costa%20Rodrigues_metodologia_cientifica.pdf>

ZINNI, Juliana V. S. Acidente vascular cerebral (AVC). Publicado em 21 de abr. 2004. Disponível em: <http://www.wgate.com.br/conteudo/medicinaesaude/fisioterapia/variedades/acid_vasc_cerebral.htm>



Nenhum comentário:

Postar um comentário